Thursday, April 14, 2005

cães cadelas e outras criaturas humanas

eu estava andando por uma avenida sem fim que me levaria deus ou o diabo sabem aonde
eu estava cansado de tantas palavras jorradas garganta prá fora e não sabia o que dizer nem o que pensar muito menos o que fazer eu estava

cães cadelas e outras criaturas humanas

um belo dia de sol e chuva que nunca jamais definitivamente me esquecerei
um dia que nada de belo nem sol nem chuva só o saco de trabalhar e a preguiça de ter que resolver todas aquelas coisas que a gente tem que resolver e fazer para sermos o que não somos

porque são apenas cães cadelas e outras criaturas humanas

Sunday, January 23, 2005

TELEPOEMAS E JAZZ

CAOS NA REDE Estes poemas foram escritos em 2000. São do livro IMAGENS, frutos do meu interesse pela comunicação de massa - em especial a TV - e estudos sobre a linguagem da poesia. Foi o último livro de poemas que escrevi. Continuaremos com mais versos, e hoje o tema deles é a publicidade na mídia.
Um forte abraço!
HB


8 (telereclames)


não existe pai alcóolatra
nem filho rebelde
no país dos reclames


[i]


a felicidade
em 30 segundos


[i]


na tela o reclame
janela para o paraíso


[i]


a TV tem sabor de refrigerante


[i]


o cigarro
as nuvens

o automóvel
o horizonte

a cerveja
o oceano


[i]


a minissaia vende vende


[i]


o poema é isso aí







FRED FELINO - JAZZ NA CUCA (continuação)

Jazz na cuca foi um texto que, na verdade, se tornou um projeto incompleto. Uma das idéias era produzir fragmentos de prosa num único improviso, a partir de um ritmo, temas e respeitando o texto tal como era escrito. No final, tive que abandonar essa idéia e fiz reescritas e muitas mudanças até chegar nessa narrativa final. De qualquer forma, trata-se de uma experiência sobre o tempo e da escrita que deseja ser eterna como o tempo.





+

E pensar que a escrita é um troço que tampa os buracos no dia. Uma coisa que preenche as horas absurdas de qualquer dia ou altura dos anos da vida; palavras são maiores do que dias e séculos. Juntas, as palavras parecem montanhas de sonhos e vidas que nunca puderam ser. A intensidade.

+

O ruído dos carros na rua. As pessoas falando e os ruídos de suas falas [vozes]. Os carros passam, param, aceleram, buzinam. A vida pulsa nesta esquina. A caneta observa e registra como [se fosse] uma câmera fora de foco. O olhar torto. A palavra-equívoco.

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A coceira. A caneta. Os dedos. A página. As palavras reduzidas, o texto-redução. Sem leitura não há escritura. Às vezes, parece que eu não acredito mais nessa coisa. Escrever se tornou algo sem propósito. Inutilizado.

+

o tempo que consome os
segundos e as estrelas

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A batata tá quente. O almoço. As palavras e o ponteiro dos segundos e a mão e a caneta sobre a página. O almoço. 12:05:59.

+

Me cansei do jazz. Eu me sinto sem ritmo, caneta tropeço na página incompreensível.

+

A folha em branco é um território para todas as possibilidades de invenção. As palavras são muito mais do que podemos. A coerência está superada. A vida é muita rápida e violenta. A palavra no cadafalso do dia a dia, segundo a segundo. Os milímetros percorridos pelo ponteiro dos segundos. A palavra tem olhos, mas nunca cai no lugar certo. Os segundos correm enquanto escrevo aos solavancos. Estou correndo com as palavras que me levam para o improvável. Estou no meio das selvas, árvores e rios imensos, estou no caminho dos animais e flores selvagens. O ritmo é intenso como um sonho sem fôlego. Respirar a vida e driblar o ponteiro dos segundos. Amar o dia e a noite e as estrelas e as pessoas que cruzam os meus segundos de sempre. O texto não encontra referência. A frase prende a respiração, a câimbra nos dedos, os olhos se fecham e a testa latejando. O ritmo é alucinante e nunca encontro o fim das palavras ou onde as palavras terminam... Mas, para o meu azar, desconfio qual é esse fim e me assusto com as minhas próprias palavras.
Palavras que saltam e coçam, uma dor nas pernas e o calor do sol nas costas largas. O corpo e o sofrimento da escrita agora.
Uma página é mais que uma semana.
Respirar fundo e contar o ponteiro dos segundos.

+

O texto. Respirar o sol que brilha como uma explosão de sons e cheiros e cores e formas. O texto. A letra lida no olho [olhar] da cuca. A intensidade. Chorar e sorrir sobre a vida e os segundos do século inteiro. Viver o dia e a noite e o ponteiro dos segundos que sempre-sempre pulsa-pulsa. O texto é o fruto de árvores no bosque eterno dos segundos que segundam sempre-sempre.

+

O gesto da palavra que se agita sob a caneta e dedos e gestos e cuca e alma e outras dimensões e sensações sempre-sempre. Ouvir o que ruída da rua que vem da janela. Comer enquanto escreve registra a vida segundo pulsação sempre-sempre mas não pois há o fim. Esquecer e pular e respirar e amar e pulsar sempre-sempre. Driblar. O ponto-final dá o ritmo do texto. Gravar palavras na página, os livros que ainda não foram escritos-lidos-relidos. A insignificância. A coceira na cabeça e a dúvida e a desconcentração, o desútil, palavra criação totalizante da memória sempre-sempre. O texto é um emaranhado, formigueiro, cachoeira, transeuntes na rodoviária, oceano. A dúvida e a página rabiscada, página no lixo. A dor nos dedos, a dor na cuca. Jazz na cuca: o improviso, o ritmo, o retorno ao tema. A palavra poema. O capítulo. O texto é formigueiro de letras e formigas. Formigamento na cuca e nos olhos e dor nos dedos e na cuca da memória desútil. A palavra. Ela não tem fim. Texto-constelações. Palavra-cosmo. A coceira das idéias. O ritmo dos registros sempre-sempre. Mas há o ponto-final. Nunca parar resistir a escrita é o segundo pulsando no ponteiro dos segundos que contam as gotas do tempo que tudo consome as flores e as estrelas. O texto: reler.

+

Escrever é coordenar cuca gesto palavra na página do improviso.

+

Não sou músico. As palavras atropelam a voz. A escrita é um caco de palavras. Não estou morto, a vida pulsa nos segundos do dia. O sol brilha e atravessa a sombra dos olhos. Escrevendo. O poema acontece no desútil da hora sempre-sempre. Escrevendo e vendo filmes que nunca acabam em si. Filmes que explodem nas nossas cucas depois que acendem as luzes. Escrever é registrar um segundo da vida de anos inteiros, décadas que resistem ao tempo. Escrever é fotografar o minuto que se perde, resgatando o desútil.
Escrevendo e escrevendo enquanto desacontecem os segundos do ponteiro da vida inteira. Dois pontos e exclamação.

+

Saturday, January 22, 2005

jazz na cuca de F. Felino & mais poemas de H. BARROCO

CAOS NA REDE
fred felino e seu JAZZ NA CUCA,
continua a novela.
Abaixo,
alguns outros poemas meus
HENRIQUE BARROCO
FRED FELINO - JAZZ NA CUCA

+

O que o autor pensou. Ele pensou a palavra na intensidade da palavra, na intensidade do gesto que registra e grava a palavra. O que o autor pensou é tão verdadeiro quanto o que o leitor mentiu.

+

Virar a página e recomeçar. Estou com medo do texto não acontecer. Preciso ir dormir. Acordar cedo. O texto acontece porque o sangue pulsa, o dia se desenrola e o ponteiro dos segundos não pára.

+

As coisas que cabem no minuto. As coisas que cabem no segundo. As coisas que cabem na palavra. As coisas que cabem na cuca.

+

Virando as páginas. Passando os segundos.

+

Estamos juntos passeando pela cidade de domingo, preguiça, estrada e comida, doces e salgados. O domingo tem o silêncio dos dias tranqüilos. O domingo tem sua própria substância.

+

Respirando. O ritmo dos segundos e letras que escrevem páginas e dias. A vida. O dia de palavras e páginas e livros. A sua mão me acompanha nas palavras que brotam, frutos e flores de palavras. Palavra-fruto, o livro-árvore. Paisagens de frases. O livro. A semente. Coçando a cabeça, coçando o nariz, pigarreando, mexendo as pernas e a cadeira. Bebendo a água e esfregando os olhos. O texto brota na página inteira. A página é um campo, um jardim fértil com a intensidade das frases perdidas e precisas. A frase.
A intensidade da palavra me tira o fôlego.

+

Muitas vezes, escrever é prender a respiração e mergulhar no texto, enquanto é possível.
+

5 ( telejornal)
HB



teleinformação
parque de diversão


[i]


telejornal efeitoespecial
cenário de foguetes e estrelas
locutor de terno brilhante como prata
cabelos como ondas na noite
vídeo higt-tech
debaixo da ponte


[i]


horário-nobre na tela da TV
os locutores
as manchetes
ouverture
a música das estrelas
o repórter no país cheio de arranha-céus
verdades de um outro mundo colorido
notícias cortadas e coladas na tela da TV
o sorriso do presidente passeando pela Estátua da Liberdade
vulcões e terremotos estremecem o vídeo do televisor
a vida dos atores da TV em seus castelos e piscinas beijando e abraçando
umas garotas de seios espetadinhos
a brancura da cal cobrindo dezenas de cadáveres
o senador que levanta a saia da secretária morena de longos cabelos
onduladinhos
o gol de bicicleta do camisa 10 da seleção verde-amarela
sorrisos e ternos como boa noite


[i]


o câmera filmando
o repórter de gravata vermelha
o deputado de barba negra cuspindo palavras

o editor editando a reportagem num quebra-cabeça eletrônico cheio de sons e luzes e cores

as garrafas dos refrigerantes
as vinhetas prateadas e músicas de uma janela indiscreta
ao vivo o locutor de olhos-cor-do-céu
o microfone afundando na barba negra e macia igual almofada

suspiros suspiros das adolescentes de aparelho reluzente


[i]


telejornal
o cenário parece uma cabine de nave espacial
o olho vermelho e a voz eletrônica do computador
dois astronautas de terno i microfone

a tela fixa no rosto do locutor bocas e sobrancelhas
o vídeo vai mostrando as ruas e avenidas entre arranha-céus
um senhor de cabelos de nuvens
olhos e cabeças na TV

Sunday, January 16, 2005

HENRIQUE BARROCO: UM ESCRITOR SEM PALAVRAS (continuação)

CAOS NA REDE Hoje, eu continuarei publicando alguns trechos meus. Trata-se de um miniconto, blogue-bloqueio, meu tema sempre sempre. Alguns poemas, 3, apesar de não escrever muito. Sou mais contista. Mas não resisto e arrisco uns versos manjados, publicados no http://narrarte.zip.net de um tal de Gilbert Daniel. Prossigamos.

Mas teremos também a colaboração do FRED FELINO, como disse ontem, ilustre recém filiado do recém reformado CAOS-97. Portanto, esta duplinha estará presente por aqui nas próximas publicações.

O texto do Fred, que gosto muito, foi escolhido e solicitado por mim, e ontem comentei sobre ele, o JAZZ NA CUCA OU VÍRGULAS E SEGUNDOS OU CACOS DE PALAVRAS. Prosa fragmentada, uma experiência sobre a temporalidade, a escrita como registro do tempo e nossa mortalidade. O resto é com vocês.
Um abraço do Barroco!

UM ESCRITOR SEM PALAVRAS (continuação)
Pensamentos pensamenteados e pensados. Pensar. Diariamente todo dia nos sentamos e pensamenteamos nos pensamentos do pensar. Idéias e reflexões e argumentações e divagações e filosofices filosofais e pensamentos e imaginações e mirgagens e argumentações e divagações e filosofices filosofais e pensamentos e imaginações e miragens e recordações e lembramos e relembramentos e relembrancias e a cuca pensante da memória relembradora. Pensar e respirar e pulsar e segundar. Idéias e segundos.

Estou escrevendo uma escrita de papel e mão e caneta. Escrevendo a escrita de escritos escrevíveis. Escrever é registrar o segundo e suspender o segundar do segundo e do minuto e da hora e da vida e do cosmos. Escrever até chover palavras e idéias na cidade das páginas. Ouvir o ruído do atrito da cuca-mão-caneta-página do improviso. Ouvir e escrever.

Meu nome é Henrique Barroco. Estou aqui escrevendo escritos que preenchem o dia e a vida e o cosmos. Preenchendo tudo com palavras e escritas que vão acontecendo. A testa sobre a mão e o braço erguidos na mesa do texto, caderno riscado pela caneta e dedos e cuca e miragens.
FIM

3 POEMAS DE "NA ÉPOCA DOS ÔNIBUS COLORIDOS"- HB

a boca do túnel
é a boca da serpente
que serpeneia
dentro da montanha



os arranha-céus se multiplicam
feito moscas


os arranha-céus são degraus
para alcançarmos as nuvens


FRED FELINO - JAZZ NA CUCA ou vírgulas e segundos ou cacos de palavras
(Para Flávia)



"Estou simplesmente registrando palavras..." Henry Miller
A poesia é a palavra errada no lugar certo. O deslocamento da palavra como um jogo infantil de linguagem e mistério.
+
Acordar. Abrir os olhos. Dormir de novo. Acordar. Pular da cama. Sentir cansaço. Buscar o ânimo. Esfregar as mãos. Trocar de roupa. Abrir a janela para o dia. Ir ao banheiro, fazer caretas no espelho. Urinar e defecar. Coçar as costas e entrar debaixo da água quente do chuveiro.
+
Eu sinto que estas palavras estão perdidas e desejam um caminho. Eu preciso orientá-las. Abandonei as histórias e coleciono estilhaços de palavras, pedacinhos de cadernos, páginas amassadas e retiradas do lixo do escritório; escrita de recibos e de notas rasgadas.
+
É preciso encontrar o fio da palavra e puxá-lo para que todos os livros desabem feito uma cachoeira de mentiras e enganos.
+
Os brincos. As pulseiras. Os anéis. As palavras. Os abraços. As sandálias. As blusas. Os cabelos. Os perfumes. As palavras. Os abraços. As calças. As saias. As calcinhas. As camas. Os abraços. Os beijos. Os corpos. Os corpos. Os sonhos. As roupas. As palavras. Os abraços.
+
uma palavra que seja luz
uma palavra que seja ela
uma palavra inteira como o céu
palavras e lembranças
que seja luz uma palavra: ela

+
(continua...)

Saturday, January 15, 2005

pós-neo-trans

CAOS NA REDE Este aqui é o blog do Henrique Barroco. Sou contista. Sou narcisista. Aqui vou publicar alguns textos que escrevo faz algum tempo. É um espaço para divulgar, discutir, brigar, escandalizar!
Literatura em ritmo de desenho-animado. Linguagem como Montanha-Russa. Isso tudo é barroco e Barroco. E tem a história do meu nome. Henrique, na verdade por causa da minha mãe que lia muito Herny Miller. Já, Barroco, por que me sinto e sou meio extravagante. Mas nem tanto. Acho que é mais jogada. O pior de tudo é que fui expulso de um blogue de um tal de Gilbert Daniel ( http://narrarte.zip.net ) sua trupe de escritores-poetas amadores. Dou o nome de todos eles. Tem a besta do Aurora, o poetaço Miguel Cássio, e o pior de todos, um tal de Mário Poema. Todos eles pensam que são escritores. Mas a única glória deles foi terem participado brevemente do GRUPO LITERÁRIO CAOS 97, liderado e idealizado por mim. Só que agora, este grupo está com cara nova. E já temos uma nova filiação: trata-se do talentoso e jovem FRED FELINO, também prosador, autor do emblemático e experimental JAZZ NA CUCA, além de ser pintor e desenhista. E, na rede, o Caos estará aberto, renovado, esperando a contribuição de todos que produzem e gostam de arte e cultura. Cinema, poesia, artes plásticas, teatro. Venham para este novo novíssimo blog que aqui se inicia.
Um Abraço do Barroco!!!
UM TRECHO DO H. BARROCO
Um escritor sem palavras. Um cantor sem voz. Um escritor sem imaginação. Me sinto incapaz de escrever uma linha, nem mesmo uma palavra. Não leio. Os livros secaram. O calor é insuportável. Mas há sempre sempre o brilho do sol como coisa imaterial. O susto do que lembramos e esquecemos. Mas o que ela disse. Leitura incompleta, escrita incompleta.
Antes - para não dizer "antigamente" - eu escrevia sobre muitas coisas. Havia muitos assuntos, muitas páginas preenchidas com frases. Hoje, me sento e não sei o que as palavras querem de mim. Não as reconheço. Quero matá-las!
Mas também sei que tudo isso é uma escrita que vai acontecendo, rolando na cuca. Muitos livros por ler, mas nunca desistir.
Saborosamente saboroso. Li o prefácio do "Primeiro caderno..." de Oswald de Andrade. Mas não me lembro. Eu estava relendo alguns poemas do Pessoa: "Tabacaria", "Poema em linha reta", "Lisbon Revisited". Os que eu mais gosto. Também estou pensando no Suplemento Literário do Minas Gerais, nos livros desaparecidos do Jarbas Medeiros e em coisas insignificantes. Sinto um sono, uma moleza típica das 13:00.
Eu leio Fernando Pessoa e penso naqueles versos que saltam da página, miragem do cotidiano, brutalidade, sei lá...
Você pode ver televisão e fingir que a vida é eterna.
Já escrevi algumas bobagens tão bobas que me surpreendi com tamanha babaquicel. Mas é sempre uma busca da palavra, o gesto dos dedos pressionando a caneta sobre a folha em branco. A tela branca do cinema. (...)