CAOS NA REDE Estes poemas foram escritos em 2000. São do livro IMAGENS, frutos do meu interesse pela comunicação de massa - em especial a TV - e estudos sobre a linguagem da poesia. Foi o último livro de poemas que escrevi. Continuaremos com mais versos, e hoje o tema deles é a publicidade na mídia.
Um forte abraço!
HB
8 (telereclames)
não existe pai alcóolatra
nem filho rebelde
no país dos reclames
[i]
a felicidade
em 30 segundos
[i]
na tela o reclame
janela para o paraíso
[i]
a TV tem sabor de refrigerante
[i]
o cigarro
as nuvens
o automóvel
o horizonte
a cerveja
o oceano
[i]
a minissaia vende vende
[i]
o poema é isso aí
FRED FELINO - JAZZ NA CUCA (continuação)
Jazz na cuca foi um texto que, na verdade, se tornou um projeto incompleto. Uma das idéias era produzir fragmentos de prosa num único improviso, a partir de um ritmo, temas e respeitando o texto tal como era escrito. No final, tive que abandonar essa idéia e fiz reescritas e muitas mudanças até chegar nessa narrativa final. De qualquer forma, trata-se de uma experiência sobre o tempo e da escrita que deseja ser eterna como o tempo.
+
E pensar que a escrita é um troço que tampa os buracos no dia. Uma coisa que preenche as horas absurdas de qualquer dia ou altura dos anos da vida; palavras são maiores do que dias e séculos. Juntas, as palavras parecem montanhas de sonhos e vidas que nunca puderam ser. A intensidade.
+
O ruído dos carros na rua. As pessoas falando e os ruídos de suas falas [vozes]. Os carros passam, param, aceleram, buzinam. A vida pulsa nesta esquina. A caneta observa e registra como [se fosse] uma câmera fora de foco. O olhar torto. A palavra-equívoco.
+
A coceira. A caneta. Os dedos. A página. As palavras reduzidas, o texto-redução. Sem leitura não há escritura. Às vezes, parece que eu não acredito mais nessa coisa. Escrever se tornou algo sem propósito. Inutilizado.
+
o tempo que consome os
segundos e as estrelas
+
A batata tá quente. O almoço. As palavras e o ponteiro dos segundos e a mão e a caneta sobre a página. O almoço. 12:05:59.
+
Me cansei do jazz. Eu me sinto sem ritmo, caneta tropeço na página incompreensível.
+
A folha em branco é um território para todas as possibilidades de invenção. As palavras são muito mais do que podemos. A coerência está superada. A vida é muita rápida e violenta. A palavra no cadafalso do dia a dia, segundo a segundo. Os milímetros percorridos pelo ponteiro dos segundos. A palavra tem olhos, mas nunca cai no lugar certo. Os segundos correm enquanto escrevo aos solavancos. Estou correndo com as palavras que me levam para o improvável. Estou no meio das selvas, árvores e rios imensos, estou no caminho dos animais e flores selvagens. O ritmo é intenso como um sonho sem fôlego. Respirar a vida e driblar o ponteiro dos segundos. Amar o dia e a noite e as estrelas e as pessoas que cruzam os meus segundos de sempre. O texto não encontra referência. A frase prende a respiração, a câimbra nos dedos, os olhos se fecham e a testa latejando. O ritmo é alucinante e nunca encontro o fim das palavras ou onde as palavras terminam... Mas, para o meu azar, desconfio qual é esse fim e me assusto com as minhas próprias palavras.
Palavras que saltam e coçam, uma dor nas pernas e o calor do sol nas costas largas. O corpo e o sofrimento da escrita agora.
Uma página é mais que uma semana.
Respirar fundo e contar o ponteiro dos segundos.
+
O texto. Respirar o sol que brilha como uma explosão de sons e cheiros e cores e formas. O texto. A letra lida no olho [olhar] da cuca. A intensidade. Chorar e sorrir sobre a vida e os segundos do século inteiro. Viver o dia e a noite e o ponteiro dos segundos que sempre-sempre pulsa-pulsa. O texto é o fruto de árvores no bosque eterno dos segundos que segundam sempre-sempre.
+
O gesto da palavra que se agita sob a caneta e dedos e gestos e cuca e alma e outras dimensões e sensações sempre-sempre. Ouvir o que ruída da rua que vem da janela. Comer enquanto escreve registra a vida segundo pulsação sempre-sempre mas não pois há o fim. Esquecer e pular e respirar e amar e pulsar sempre-sempre. Driblar. O ponto-final dá o ritmo do texto. Gravar palavras na página, os livros que ainda não foram escritos-lidos-relidos. A insignificância. A coceira na cabeça e a dúvida e a desconcentração, o desútil, palavra criação totalizante da memória sempre-sempre. O texto é um emaranhado, formigueiro, cachoeira, transeuntes na rodoviária, oceano. A dúvida e a página rabiscada, página no lixo. A dor nos dedos, a dor na cuca. Jazz na cuca: o improviso, o ritmo, o retorno ao tema. A palavra poema. O capítulo. O texto é formigueiro de letras e formigas. Formigamento na cuca e nos olhos e dor nos dedos e na cuca da memória desútil. A palavra. Ela não tem fim. Texto-constelações. Palavra-cosmo. A coceira das idéias. O ritmo dos registros sempre-sempre. Mas há o ponto-final. Nunca parar resistir a escrita é o segundo pulsando no ponteiro dos segundos que contam as gotas do tempo que tudo consome as flores e as estrelas. O texto: reler.
+
Escrever é coordenar cuca gesto palavra na página do improviso.
+
Não sou músico. As palavras atropelam a voz. A escrita é um caco de palavras. Não estou morto, a vida pulsa nos segundos do dia. O sol brilha e atravessa a sombra dos olhos. Escrevendo. O poema acontece no desútil da hora sempre-sempre. Escrevendo e vendo filmes que nunca acabam em si. Filmes que explodem nas nossas cucas depois que acendem as luzes. Escrever é registrar um segundo da vida de anos inteiros, décadas que resistem ao tempo. Escrever é fotografar o minuto que se perde, resgatando o desútil.
Escrevendo e escrevendo enquanto desacontecem os segundos do ponteiro da vida inteira. Dois pontos e exclamação.
+